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O poema do século (a Eduardo Wilson)
/ QUESTÃO DE CONFIANÇA / Publicado por Douglas Reis - 06/03/2009 | 09:31h

Recebendo aplausos de reis e mendigos,
Foi-se o século dos risos e das mágoas;
Viam-no decrépito mesmo os amigos,
Como um corpo que flutua sobre as águas.

Em verdade, o céu que pertence à alma humana
Aguardava que piscasse a nova estrela.
Com a fé que da emoção pura dimana,
Nossa mente quis tal luz para entretê-la.

Cansados de todas aquelas promessas,
De um cosmos a mando do computador,
Queremos a frente ver coisas quais essas,
Deixando ao futuro nosso sonho impor.

O século novo - eis o que querem tantos!
O século vinte e um - nossa esperança!
Desde meliantes até homens santos,
Todos olham quando o tempo então avança.

Há, no demais, meros flashs do moribundo
- O século vinte, o maior que se viu.
O homem nestes cem anos varreu o mundo,
Bebeu do licor da alegria e sorriu.

"Venha, dance só essa comigo, aceite...",
Convida o homem à Razão, quase exaurido,
Morto como se tivesse a pé subido
Os quase dois mil degraus do Empire State.

No entanto, ainda há energia para ir
Aos domínios do fictício Possêidon,
O palácio de São Jorge lhe invadir
Ou ir ao Woodstok - grande alucina som.

Milhões como um só homem agem e dançam.
Vozerio - são as raves incessantes.
Zumbis cheios de êxtase nunca se cansam
De fruir as luzes de horas excitantes.

Eis o mundo que é dos clubbers e internautas,
Contrário ao otimismo ingênuo do humanista.
Ao futuro restam decisões incautas,
- Não há base para o que a razão conquista.

A internet é o veículo em mãos do homem
No globalizado mundo em que vivemos;
Mas a fome, a angústia, o estresse nunca somem,
Estampa-se a miséria em quadros extremos.

Vitimado pela atomizante ideia
De integrar o próprio mundo maquinal,
Sente-se o homem sob o acaso na odisseia,
E se apaga a antiga noção de moral.

Que base haverá para qualquer justiça
Além de uma adequação às opiniões
De elites que tornem a massa submissa
A seus arbitrários fins, ao impor pressões?

Num mundo onde leis soerguem a rebeldia,
Como a sociedade será erigida?
Como proclamar a dignidade um dia,
Sem crer numa origem divina da vida?

Se o século vinte, com as novidades
Que trouxe, gerou um período incerto,
Provocando turbulentas tempestades
Quando não tínhamos um teto por perto,

Hoje o coração de mármore que luz
Se revela frio e é dúbio como Janus;
Deus oferta a nós o eterno amor da cruz,
Capaz de apagar problemas de cem anos.

Douglas Reis

 
 
 
SOBRE O AUTOR
DOUGLAS REIS
 
Formado em Teologia pelo Unasp, campus Engenheiro Coelho, SP, desde 2002. Atua como pastor auxiliar do distrito central de Joinville, SC, mantém o blog www.questaodeconfianca.blogspot.com
 
     
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