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Mais vida
/ QUALIDADE DE VIDA / Publicado por Fabiana Bertotti - 04/03/2009 | 08:17h

- Faltam só cinco minutos - anseia a jovem para sair do trabalho. Contando cada movimento do ponteiro do relógio, mal consegue aguentar para sair correndo do escritório e tomar um bom banho de água morna. Desejo mesmo é de dormir assim que colocar os pés em casa, mas só desejo. A ligação dos filhos cobrando um lanche no jantar já deu o sinal vermelho para o descanso.

Trânsito caótico, chuva fina aumentando o transtorno e um festival de buzinas completam a sinfonia do estresse. Parada no semáforo admira o outdoor de uma nova loja anunciando novidades da moda. Falando em loja, ainda está em débito com o rebento mais velho, por conta de um carrinho motorizado que viu no intervalo de seu desenho preferido. E em se tratando de desenho, a caçula já afixou um na geladeira, da boneca que fala em cinco línguas diferentes. Compras! Ainda tem que passar no supermercado para as provisões noturnas, pois o maridão deve fazer hora extra. Mais uma vez.

Entre uma e outra olhada nas gôndolas do supermercado, a lembrança de que a conta corrente não anda permitindo adendos da lista doméstica. Nada que um novo ajuste no cheque especial não dê jeito. Argh! Não! Só de pensar nas contas para pagar, o bolso lateja numa flagrante manifestação contrária. Ossos do ofício. De ossos, aliás, está estafada. As pressões infantis equilibram a balança, fazendo contrapeso com a esganadura do trabalho. Resultados, resultados!

Ao chegar em casa, vai orando em silêncio, torcendo para que o dia tenha sido tão cansativo para os pequenos, quanto foi para ela mesma. Assim, num misto de torcida e remorso, escuta os gritos acenando e cobrando o prometido lanche. Mais trabalho! A contemplá-los comendo, sente uma ponta de saudade do tempo em podia dar mais atenção, tinha mais disposição. A falsa necessidade de bens, status e sensações cobra um alto preço. O trabalho extra para pagar as contas extras traz sobrecarga e culpa também extras. A saúde que não responde como outrora, mesmo num jovem corpo de pouco mais de 30 anos, é o termômetro do esforço. Pior mesmo é a cabeça. Nesta, dores, aflições e cabelos brancos dão conta das prioridades que foram estabelecidas há alguns anos. Irremediáveis não, todavia cruéis demais para se encorajar a quebrá-las. Enquanto acaricia as crianças dormindo, as pernas inchadas do trabalho caminham em direção à cozinha, a arrumar um lanchinho para o marido que deve chegar logo. Menos trabalho, significaria menos dinheiro. Menos dinheiro, significa menos compras, menos compras significam, sei lá... mais vida.

Fabiana Bertotti

 
Palavra(s) chave(s) / TAGS: estresse  família  
 
 
SOBRE O AUTOR
FABIANA BERTOTTI
 
Jornalista, pós-graduada em Jornalismo Áudio-Visual pela PUC-PR, atuou na Rádio Novo Tempo de Florianópolis e foi repórter e apresentadora no SBT de Santa Catarina. Atualmente exerce a função de diretora associada de comunicação de uma sede administrativa da Igreja Adventista do Sétimo Dia para a região Sul do Paraná. Escreve para diversas editoras sobre assuntos ligados à saúde e comportamento.
 
     
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