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| A leitura que fazem para nós
/ REALIDADE EM FOCO / Publicado por Felipe Lemos - 24/03/2010 | 00:14h
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Sempre que se aproximam as eleições no Brasil, uma meia dúzia de propagandas do governo e da Justiça cansam e teimam em tentar criar uma consciência eleitoral. Com linguagem jovem, jeito descontraído, apelo emocional, apelo à racionalidade - ou seja lá que outro expediente - a tentativa é de fazer com que os eleitores entendam que seu voto pode modificar alguma coisa ou deixar na mesma situação. Como se isso fosse acontecer mesmo, se a escolha dos candidatos às vagas continua a mesma da época imperial. Leia-se sem participação da população, só de uns poucos filiados a partidos políticos. Mas por que falo isso? Porque a mesma tentativa existe hoje em relação aos meios de comunicação. Com a absurda e desequilibrada difusão de dados descontextualizados, vulgarmente chamados de informações, todo mundo pensa que está bem informado, que já entendeu tudo o que se passa ao redor e que pode comentar sobre os mais diferentes e divergentes temas com profundidade e grande sapiência. E ensinam por aí que precisamos ser conscientes quanto ao que vemos, ouvimos e lemos. Consciência ao consumir a dita "informação". Está certo, mas parece que não funciona.
A grande maioria ainda se alimenta dos telejornais, das notícias dos portais, dos blogs e das redes sociais sem capacidade crítica alguma. Pergunte para algumas pessoas se elas sabem por que determinada emissora de TV trata de associar, nas reportagens de seus telejornais, o tal "chá do Santo Daime" à morte do cartunista Glauco e por que sua concorrente principal não. Por que talvez o elenco das telenovelas de uma esteja intimamente ligado à seita do Daime, enquanto no caso da outra ainda não haja tanto comprometimento assim? E por que talvez uma determinada organização religiosa esteja por trás de uma emissora, ao passo que no caso da outra isso não ocorra? Poucos conseguem fazer esta reflexão. Quantos sabem por que alguns políticos, apesar de responderem a inúmeros processos e ser alvo constante de investigações judiciais e policiais em seus estados, simplesmente estão ausentes do noticiário nacional de algumas emissoras? Por que talvez sejam proprietários de emissoras afiliadas de algumas grandes redes em certas regiões? Quais pessoas efetivamente conseguem indagar dessa forma? Poucos depreendem certas conclusões a partir da observação atenta do que se passa nos meios eletrônicos ou impressos.
E o que dizer dos blogs patrocinados por determinadas empresas e que simplesmente se negam a divulgar algo contrário aos seus anunciantes ou das empresas que permitem que seus blogs tenham maior visibilidade? E isso vale para os blogueiros que se denominam "independentes". Podem até ser das empresas de comunicação de onde saíram, mas não o são da lógica comercial como já pregava há décadas o falecido sociólogo francês Pierre Bourdieau.
A verdade é que continuam fazendo uma leitura para nós a cada minuto na Internet, a cada dia no jornal e nas emissoras de rádio e a cada noite no telejornal antes e depois das telenovelas. O pior é que muitos aceitam essa leitura midiática recortada e planejada financeiramente sem pestanejar, sem reagir, sem se incomodar. Motivo? Elenco dois: falta de leitura própria (poucos leem e muitos citam o que ouvem os outros comentarem e lerem - leitura de segunda e terceira mão) e falta de interesse em realmente se envolver com o cotidiano, com o que ocorre bem ao seu redor. É a mesmíssima realidade que diz respeito à política. Seres ávidos por criticar os políticos e a mídia, de maneira simplista e superficial, são os que sequer buscam o contexto daquilo que ouvem, leem e veem e se tornam inócuos em suas críticas. Na era das redes sociais, mais do que se relacionar é preciso interrelacionar as coisas, associar os fatos, ler nas entrelinhas e unir os pontinhos. E ver o que as pessoas realmente pensam. Contrastar o recortado do realizado. Quem sabe, por aí, vamos ter eleições com mais participação pensante e uma leitura de mídia mais consciente mesmo.
Felipe Lemos |
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SOBRE O AUTOR |
| FELIPE LEMOS |
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| Jornalista, especialista em marketing, escritor nas horas vagas, já trabalhou em jornais, rádio, revista, assessoria de imprensa e hoje é assessor de comunicação das instituições adventistas na América do Sul. |
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