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Milton em Português
/ QUESTÃO DE CONFIANÇA / Publicado por Douglas Reis - 04/03/2010 | 00:43h

Provavelmente, uma das tarefas mais árduas e ingratas seja traduzir poemas. Os melhores poetas exploram as peculiaridades de sua língua, produzindo efeitos dificilmente transponíveis para alheio idioma.

Já traduzi alguma coisa do Francês, como treino. Agora, me aventuro pelo Inglês. A dificuldade é maior, uma vez que a língua de Shakespeare é muito mais concisa do que a de Camões (e também em relação à de Leconte de Lisle).

Aliás, já que cito grandes autores, vale dizer que escolhi simplesmente um dos mais ilustres escritores ingleses: John Milton, autor de Paradise Lost. Seu soneto original, On the Late Massacre in Piedmont, é decassílabo e já se encontra em Português, vertido por Isolina Waldvogel, maior poeta adventista de todos os tempos.

Justamente as opções estéticas de Isolina na tradução de Milton revelam as dificuldades do ofício, o que comentávamos antes. Por exemplo: seguindo um caminho comum, a brasileira usa o alexandrino para comportar o decassílabo inglês. Ela também não se atém ao esquema métrico original, muito menos se furta de interpretar o fraseado peculiar de Milton, nos trechos em que a métrica a obriga a isso.

Diferentemente, minha tradução parte do decassílabo e segue as disposições de rimas miltonianas (que, aliás, fogem do padrão elizabetano do soneto, para seguir o soneto italiano, bem familiar aos leitores luso-brasileiros). O tom das traduções é bem distinto. Isolina é mais melodiosa, evitando os enjabemants do original, enquanto a minha tradução é mais entrecortada, brusca às vezes. Milton encontrou um ritmo mais equilibrado se o cotejarmos ao das duas versões. Procurei ser conciso (até em virtude de o "espaço" disponível no decassílabo ser menor) e o mais fiel ao modo de escrever de Milton.

Claro que fidelidade total seria impossível; no entanto, procurei fazer algo equivalente, num exercício de recriação do poema. Um exemplo disso está no conjunto "stocks/stones" (v. 4) usado por Milton, que se constitui de uma paronomásia graciosa. Traduzir literalmente "toras (de madeira)/rochas" não produz o mesmo efeito. Isolina interpreta a expressão, empregando a forma enxuta "ídolos", que não foge à caracterização da idolatria proposta pelo poema original. Quanto a mim, procurando acompanhar Milton, verti os termos para "lenha/penha", criando um equivalente linguístico, tanto em significado, quanto em efeito sonoro.

Obviamente, nenhuma tradução é perfeita ou isenta de correções. Mas, com seus méritos e defeitos inerentes, tanto eu quanto (imagino) Isolina tencionamos comunicar a beleza da poesia religiosa de um dos mais relevantes autores ingleses; apesar de partir de um caso real de perseguição religiosa, Milton dá grandiosidade ao tema, fugindo do reles denuncismo para acrescentar uma perspectiva escatológica, apoiada tanto na vingança futura do Senhor, como no triunfo da verdade. Somente esse enfoque já justificaria o trabalho para traduzir o seu belíssimo soneto.

On the Late Massacre in Piedmont

Avenge, O Lord, thy slaughtered Saints, whose bones
Lie scattered on the Alpine mountains cold;
Even them who kept thy truth so pure of old,
When all our fathers worshiped stocks and stones,
Forget not: in thy book record their groans
Who were thy sheep, and in their ancient fold
Slain by the bloody Piemontese, that rolled
Mother with infant down the rocks. Their moans
The vales redoubled to the hills, and they
To heaven. Their martyred blood and ashes sow
O'er all the Italian fields, where still doth sway
The triple Tyrant; that from these may grow
A hundredfold, who, having learnt thy way,
Early may fly the Babylonian woe.

(Trad. Isolina Waldvogel) 

Vinga, ó Senhor, Teu massacrado povo santo,
Cujos ossos jazem nos Alpes espalhados,
Aqueles que a verdade Tua amaram tanto,
Embora os pais houvessem ídolos louvado.

Não os esqueças, pois Teu livro relatadas
Traz as angústias dessas Tuas ovelhinhas
No montanhês redil outrora trucidadas,
Lançadas rocha abaixo - mães com criancinhas

O vale seu gemido ecoava aos altos montes,
E as cinzas desses mártires predestinados
Cobriam vastos campos, lá no Piemonte,

Por tríplice, cruel tirano dominados.
Surjam das cinzas multidões de seguidores
E fujam cedo aos babilônicos horrores.


(Trad. Douglas Reis) dedicado a Danivia Mattoso 

Vinga, ó Senhor, Teus santos, pois dos tais
Ossos nos Alpes veem-se em cada canto
- Tinham áurea a verdade há muito, enquanto
Louvavam lenha e penha os nossos pais.

Lembra-te: anota em Teu livro os seus ais,
Que eram Tua grei, mas dos montes tanto
Mães quanto filhos se jogou. Que o pranto
Ressoe destes vales tão brutais

Pelo Piemontes todo e dali para
O Céu. A cinza e o sangue do martírio
Enchem a Itália, e abalam a tiara

Tripla do opressor; dê o sangue empíreo
Noutra grei, que o conheça e em senda clara
Fuja do babilônico delírio.

 
 
 
SOBRE O AUTOR
DOUGLAS REIS
 
Formado em Teologia pelo Unasp, campus Engenheiro Coelho, SP, desde 2002. Atua como pastor auxiliar do distrito central de Joinville, SC, mantém o blog www.questaodeconfianca.blogspot.com
 
     
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