Quando algo de extraordinário acontece é porque sempre há um editor de manchetes por perto. Todo ano, milhares de pessoas morrem por obra de motoristas bêbados, mas a manchete mais destacada será para o motorista que ocupa um posto público ou para quem é celebridade. O anônimo terá que estar envolvido em acidente gravíssimo, logo, extraordinário, para ser manchete. Dessa forma, ele se torna um anônimo que virou exceção.
Milhares de pessoas assistiram ao filme Avatar e voltaram para casa, jantaram, dormiram e foram trabalhar nas manhãs seguintes, talvez comentando com um e com outro sobre os efeitos visuais do filme mais espetacular de todos os tempos da semana.
Mas, eis que, como demorou tanto?, o noticiário avisa: Homem morre depois de assistir Avatar em 3-D. O caso, acontecido na China, é triste e trágico para o homem e para a família, acreditamos. De outro lado, sites (eu soube pelo Yahoo! Notícias), blogs, jornais, revistas se fartarão de leitores que se espantarão com o fato. Os mais precipitados julgarão o feito técnico do diretor-produtor James Cameron como um caso típico de assassinato culposo. O Extra! Extra! correrá o globo. Mas esse corre-corre não passa de lero-lero.
Nas letras menores sob a manchete, lemos que o falecido espectador de fato morreu depois de assistir Avatar em 3-D. Sua morte, porém, se deu 11 dias depois de ter ido ao cinema. E o homem já sofria de males do coração.
É mais ou menos assim: o pacato cidadão entra num parque temático, vai até o ponto mais alto da montanha-russa mais alta e tem um ataque cardíaco ao chegar no trabalho na semana seguinte. Apesar das hordas que semanalmente invadem esses parques e saem sem um arranhão sequer, bastará um incidente desses para a manchete cair estrondosa: Homem morre depois de passeio na montanha-russa mais alta do mundo.
A manchete da exceção prefere o incidente da minoria à rotina da maioria. Mil andarão na roda-gigante, dez mil na montanha-russa; porém, só o único atingido merecerá a manchete. O cotidiano não é notícia. O fortuito é muito mais interessante.
A manchete da exceção não é um instrumento maligno. Mas ela costuma aproveitar a ocasião para criar excitação, geralmente por meio da distorção do fato. Se a manchete estampar "Homem morre 11 dias depois de assistir Avatar", a notícia está dada e, por conseguinte, esvaziada. Omita-se o tempo pós-ida ao cinema do espectador falecido, 11 dias, e o leitor é obrigado a ler a notícia até o fim. Principalmente, se essa era a notícia que ele esperava para fazer uma minicruzada para crucificar o filme, o diretor, o cinema, a tecnologia, esses jovens de hoje, essa mídia de sempre.
Creditar a morte de um homem a um espetáculo assistido 11 dias antes denota um contorcionismo de edição jornalística que contaminou os informes da internet. Sites e blogs passaram a empregar a manchete sensacionalista na disputa por leitores. Observa-se, ainda, um desejo de atrair atenção que não esconde o gosto pela fabricação de factóides.
A manchete sobre a morte do espectador chinês atrai atenção ao mesmo tempo em que trai sua omissão planejada de um dado importante. A questão, porém, ganha outros contornos quando a manchete da exceção submete-se ao ponto de vista político, profissional, religioso ou ideológico do editor. Nesse caso, uma informação é reelaborada para angariar o assentimento do leitor, numa confirmação de suas expectativas, ou também para suscitar no leitor o interesse pelo fato, criando sugestões para suas expectativas.
Leia abaixo algumas manchetes que inventei, assim como alguns títulos de periódicos. No entanto, se certos veículos de comunição resolvessem destacar o filme bestseller Avatar ou a morte do espectador chinês, as manchetes a seguir seriam improváveis?
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Carta Capital: Avatar, o filme do ano; Lula, o homem do ano
Filosofia Hoje: Avatar não existe
Exame: Tecnologia 3-D de Avatar estará em breve no seu home theater
O Ambientalista: Avatar apoia a defesa da natureza
O Ecorreligioso: Avatar confirma: somos todos um em Gaya
Vanguarda Revolucionária: Companheiro chinês é vítima de produção imperialista
O Fundamentalista: Morte de chinês atesta os efeitos nocivos do cinema
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Joêzer Mendonça