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Este, esse ou aquele?
/ BAÚ DE PALAVRAS / Publicado por Danivia Mattozo - 08/09/2009 | 08:25h

Todo mundo tem dúvida sobre como usar os pronomes demonstrativos, basicamente este, esse e aquele (e formas derivadas isto, isso e aquilo). O ensino tradicional, e bota tradicional nisso, foi igualzinho pra todo mundo (inclusive pra mim): este, quando se refere a algo perto de quem fala; esse, quando se trata de algo perto de com quem se fala; e aquele, quando o objeto de que se fala está longe tanto de quem fala (locutor) quanto de com quem se fala (interlocutor). Ou seja, numa conversa em que eu estou falando com você, posso dizer "este lápis, se estiver perto de mim"; esse lápis, se estiver perto de você; ou aquele lápis, se estiver longe de nós dois. 

Até aí, não é tão difícil. Dá pra entender e aplicar. O problema é quando a gente está escrevendo um texto, como eu estou fazendo agora, e não tem objeto nenhum sobre o qual estamos conversando, mas os pronomes demonstrativos cismam em aparecer. 

Nesses casos, começa o problema. É um caos completo. Parece não haver lógica nenhuma. Às vezes penso que, de verdade, ninguém sabe usar. Já ouvi muita gente dizer que tem esperança de que um dia não existam mais regras sobre isso e todos possam usar livremente o que quiserem, afinal, já funciona mais ou menos assim. 

Bom, pra entender como se usam os pronomes no texto, é preciso compreender dois conceitos importantes: anáfora e catáfora. A anáfora diz respeito à repetição de um termo ou pensamento; à retomada de algo já dito anteriormente. Já a catáfora é o contrário: é a antecipação ou indicação de algo que se vai anunciar. Os pronomes demonstrativos funcionam, no texto, de acordo com esses dois conceitos. Ou seja, eles podem ser anafóricos ou catafóricos, dependendo do contexto. Quando possuem a função de retomar um termo ou pensamento já citado no texto, o pronome é anafórico. Pelo contrário, se o pronome se refere a algo que ainda vai ser dito, ele é catafórico. 

Ciente desses conceitos, a regra se torna simples: o pronome que funciona como anafórico é sempre o esse e derivados (isso, desse, disso etc.); enquanto o pronome que tem função catafórica é o este e seus derivados (isto, disto, deste etc.). Vejamos alguns exemplos pra facilitar a compreensão: 

Ex1: João deseja muito construir sua própria casa. Esse é o sonho de sua vida. 

Ex2: Sempre que chove enfrento um grande congestionamento pra chegar ao serviço. Nesses dias, procuro sair mais cedo e manter a calma, para diminuir o estresse. 

Esses dois exemplos mostram casos de referência anafórica, ou seja, os pronomes são usados para se referir a algo já falado. No exemplo 1, esse se refere a construir a própria casa, algo dito na oração anterior. No segundo exemplo, esse ou nesse (em + esse = nesse) se refere aos dias de chuva, já anunciado também na oração anterior. Nem sempre a distância entre o pronome anafórico e o termo ao qual se refere será apenas de uma oração. Em alguns casos, retomar-se-á algo dito bem antes. 

Vejamos agora aos casos de catáfora: 

Ex3: O que eu desejo para a minha vida é isto: paz, felicidade e algum dinheiro. 

Ex4: Estas são as qualidades que Joana viu no noivo: é simpático, bem-humorado, além de ser louco por ela. 

Esses dois exemplos deixam claro que os pronomes usados se referem a algo ainda não anunciado, sobre o que ainda se falará. 

De forma bem resumida, a dica que eu dou é prestar atenção a que se refere o pronome. Se ele se refere a algo já dito (o que ocorre na maioria das vezes), use esse e seus derivados; se o pronome se refere a algo ainda não dito, que vai ser anunciado a seguir, o pronome é este e derivados. 

Um último uso que deve ser lembrado é a oposição entre este e aquele. Quando apresentamos duas ideias ou termos diferentes e precisamos retomá-los de forma separada, usamos este e aquele: este para o termo mais próximo, ou seja, o último a ser escrito, e aquele para o termo mais longe, ou seja, o que foi escrito há mais tempo.

Ex5: Matemática e Literatura são minhas matérias preferidas: esta me desenvolve a sensibilidade e a capacidade de abstração; aquela, o raciocínio lógico. 

Muito bem. Espero ter ajudado você a entender a lógica por trás do uso dos pronomes relativos. É mais simples do que muita gente imagina. Agora releia o texto e perceba todos os pronomes que eu precisei usar ao longo da escrita. Para facilitar, coloquei todos sublinhados e negritados. Perceba como usamos muito mais esse e seus derivados, porque a maioria de nossas referências são anafóricas, ou seja, costumamos retomar o que já foi dito, para explicar ou esclarecer. 

Danívia Mattozo

 
Palavra(s) chave(s) / TAGS: língua portuguesa  pronomes demonstrativos  
 
 
SOBRE O AUTOR
DANIVIA MATTOZO
 
Bacharel, mestre e doutoranda em Linguistica pela UFMG. Atua como revisora na Editora UFMG, presta serviços para a Casa Publicadora Brasileira, e dá aula de português e redação como voluntária em cursinhos comunitários.
Contato: danivia@gmail.com
 
     
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